[Esta matéria foi feita originalmente em formato de thread no Twitter]

O Oviraptor é um dinossauro bastante representado na cultura popular, sendo mostrado, principalmente, como um predador furtivo que roubava ovos dos ninhos de outros dinossauros para se alimentar (lembram do filme Dinossauro, do ano 2000?). Ora, seu nome genérico em latim significa, literalmente, “ladrão de ovos”. Mas por que este dinossauro se tornou um “bicho-papão” do período Cretáceo? É isso que vamos discutir na matéria de hoje.

A descoberta da cena do crime

Em 1923, o naturalista estadunidense Roy Chapman Andrews liderou uma expedição paleontológica ao Deserto de Gobi, na Mongólia. Lá, entre os arenitos avermelhados da Formação Djadokhta, Andrews e sua equipe encontraram um fóssil impressionante: um ninho e ovos fossilizados, com os restos de um dinossauro terópode desconhecido sobre eles. A expedição recuperaria, ainda, os fósseis de dois outros terópodes também desconhecidos pela ciência até então, enviando os três achados para os Estados Unidos.

Holótipo de Oviraptor philoceratops. Foto via Wikimedia Commons.

Já nos EUA, a descrição dos fósseis ficou nas mãos do paleontólogo Henry Fairfield Osborn, que publicou, em 1924, um artigo descrevendo e nomeando os três terópodes achados na Mongólia. Entre eles, foi identificados pela primeira vez o troodontídeo Saurornithoides mongoliensis; além do famoso e querido dromeossaurídeo Velociraptor mongoliensis.

O fóssil do terceiro terópode consistia em um crânio fragmentado e a parte superior do esqueleto, localizados a apenas 10 centímetros acima de um ninho cheio de ovos. Osborn, acreditando que os ovos pertenciam ao ceratopsiano herbívoro Protoceratops (cujos fósseis são bem comuns na região), nomeou o terceiro terópode como Oviraptor philoceratops: “ladrão de ovos de ceratopsianos”. Para Osborn e outros pesquisadores que analisaram o fóssil na época, parecia que o Oviraptor estava tentando roubar um dos ovos de uma pobre mãe Protoceratops, quando uma catástrofe (como o deslizamento de uma duna ou uma tempestade de areia) atrapalhou seus planos, conservando ladrão e vítimas numa cena de crime que só seria redescoberta mais de 70 milhões de anos depois. Porém, nem mesmo Osborn acreditava 100% nessa teoria e informou no artigo original que o fóssil talvez estivesse sendo equivocadamente descrito.

Ninho com ovos de “Protoceratops” encontrados juntos ao holótipo de Oviraptor. Foto por Steve Starer, via Wikimedia Commons.

Ainda assim, durante várias décadas, foi a figura de um furtivo ladrão de ninhos pré-histórico que contaminou a mente de cientistas e populares quando o nome Oviraptor era mencionado. Porém, haviam mais segredos enterrados nas areias do Deserto de Gobi; e alguns deles ajudariam a inocentar este dinossauro.

Novas pistas

Por quase 8 décadas, o Oviraptor não passava de um ladrão de ovos oportunista. É só abrir qualquer livro infantil ou assistir qualquer animação sobre dinossauros dessa época para ter certeza do que digo. Além disso, muito ainda era desconhecido sobre esse dinossauro, pois havia pouco material fóssil a se estudar. Mas então, nos anos 90, vieram duas descobertas que poderiam mudar nossa imagem desse dinossauro para sempre.

Oviraptor rouba o ovo de um hadrossaurídeo furioso (uma liberdade artística, já que não há registro desse tipo de dinossauro na Formação Djadochta). Arte por Felipe Alves Elias, via álbum de figurinhas Dinossauros: Eles estão chegando! (Editora Alto Astral).

Em 1993, paleontólogos, trabalhando num projeto paleontológico mútuo entre a Academia de Ciências da Mongólia e o Museu de História Natural Americano, escavavam a Formação Djadokhta quando encontraram um fóssil intrigante: um ovo de dinossauro contendo um embrião fossilizado.

Este ovo (IGM 100/971) foi descrito em artigo publicado em 1994, onde os paleontólogos identificaram o embrião como sendo um dinossauro ovirraptorídeo. Somado a esse fato, os autores do artigo argumentam que o ovo é muito semelhante aos do ninho descrito junto com o holótipo de Oviraptor philoceratops; aquele mesmo que se acreditava pertencer a um Protoceratops. Com essa descoberta, as coisas começaram a mudar.

Ovo de Citipati com embrião fossilizado (IGM 100/971). Foto por Eduard Solà, via Wikimedia Commons.

A segunda descoberta também foi feita em 1993, pela mesma expedição conjunta. O novo fóssil, apelidado de “Big Mama” (IGM 100/979) era composto por um ninho com ovos, com o esqueleto de um ovirraptorídeo sentado sobre ele! O dinossauro não estava simplesmente numa posição que daria a entender que o animal fora pego por uma tempestade de areia surpresa enquanto assaltava o ninho. Este adulto estava em uma posição de incubação, como encontrada em várias espécies de aves atuais! Essa posição de incubação, inclusive, ajudaria a fortalecer a ideia de penas em dinossauros não-avianos, já que este ovirraptorídeo necessitaria de penas no corpo para proteger e incubar seus ovos.

Apesar de terem sido identificados como pertencentes ao outro gênero e espécie de ovirraptorídeo (Citipati osmolskae), Big Mama e o embrião fossilizado foram uma virada de mesa na interpretação do Oviraptor e nas teorias sobre maternidade/paternidade em dinossauros como um todo. Antes deles, haviam sim evidências de maternidade em dinossauros, como é o caso da dos ninhais de Maisaura nos Estados Unidos. Porém, Big Mama e outros fósseis posteriores foram evidências muito importes para as teorias sobre reprodução e criação de filhotes em dinossauros não-avianos.

“Big Mama” sentada em seu ninho. Foto por Kumiko, via Wikimedia Commons.

E o júri declara o réu…

Big Mama não foi único fóssil de um ovirraptorídeo adulto em seu ninho. Em 1995, as expedições da Academia de Ciências da Mongólia e do Museu de História Natural Americano encontraram um fóssil bastante semelhante na mesma formação, apelidando-o de “Big Auntie” (IGM 100/1004).

Fóssil da “Big Auntie”. Foto por Steve Starer, via Wikimedia Commons.

Não é surpresa para ninguém que, diante de todas essas novas evidências, o que entendíamos sobre o Oviraptor e seus parentes tinha que mudar. Ao que tudo indicava, o Oviraptor não era um ladrão de ovos, mas sim um pai ou mãe dedicado(a) que morrera protegendo seus ovos de predadores e do ambiente. Não um réptil frio e oportunista, mas um animal zeloso por sua prole, bem mais parecido com uma ave atual. Ainda hoje, novos fósseis de ovirraptorídeos suportam a visão do cuidado parental, sendo o mais recente de dezembro de 2020.

No fim, Osborn estava certo em desconfiar de um equívoco na descrição do holótipo de Oviraptor. Juntas, todas as evidências que discuti neste texto ajudaram a inocentar o Oviraptor de seus “crimes”, permitindo que interpretássemos este, e outros dinossauros, como pais cuidadosos, semelhantes aos seus remanescentes ainda vivos: as aves.

Reconstrução artística e um Oviraptor em seu ninho. Arte por Isis Masshiro, via DeviantArt.

Fontes:

1. OSBORN, Henry Fairfield. THREE NEW THEROPODA, PROTOCERATOPS ZONE, CENTRAL MONGOLIA. 1924.

2. NORELL, Mark A.; CLARK, James M.; DEMBERELYIN, Dashzeveg; BARSBOLD, Rinchen. A Theropod Dinosaur Embryo and the Affinities of the Flaming Cliffs Dinosaur Eggs. 1994.

3. NORELL, Mark A.; CLARK, James M.; CHIAPPE, Luis M.; DEMBERELYIN, Dashzeveg. A Nesting Dinosaur. 1995.

4. NORELL, Mark A.; BALANOFF, Amy; BARTA, Daniel E.; ERICKSON, Gregory M. A Second Specimen of Citipati osmolskae Associated With a Nest of Eggs from Ukhaa Tolgod, Omnogov Aimag, Mongolia. 2018.

5. The case of the dinosaur egg thief. Vídeo do canal PBS Eons, no YouTube. 2020.

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